jueves, 4 de noviembre de 2010

Incidente em Antares (1971)

O último romance de Érico Veríssimo, se enquadra no estilo modernista e utiliza todos os recursos para organizar a narrativa, dando, dessa forma, a impressão de que tudo aconteceu e foi verdade. Constrói-a intercalando textos, transcreve relatos, diários e artigos de jornais o que imprime à narrativa uma atmosfera especial. Ao lado da ficção, tem fatos históricos que aconteceram.
O autor revela-se irônico e mordaz ao longo do romance, caricaturando gente, linguagem e instituições, combinado o sarcasmo com espírito crítico, faz uma crítica contundente e mordaz à sociedade.
Se destaca na linguagem do livro é a tendência do autor para criar tempos novos, quase sempre da formação erudita, com base nos gregos e latinos. No gaúcho, usa vocábulos regionais. Uma ou outra palavra trai o regionalismo.
O romance é um verdadeiro painel sócio-político, não só no Rio Grande do Sul como do país. No contexto político sobressai a figura de Getúlio Vargas com seu carisma, com seu nacionalismo, com o seu populismo com a sua auréola de "pai dos pobres", chega a ser impiedosamente ironizado “Os pobres vão continuar tão pobres como no tempo em que ele estava vivo", Getúlio tornou-se um mito para as pessoas simples e humildes. Isso está recriado nas orações dos humildes.
Uma greve geral decretada pelos operários das multinacionais de Antares é uma resposta dos trabalhadores à exploração e ao salário da miséria que recebiam desse modelo capitalista, socialmente injusto e perverso, vão proliferando os esquerdistas, simpatizantes do socialismo, que se identificam com os pobres e operários chamados de comunistas e vermelhos, para desespero da sociedade conservadora que não aceitava mudanças e reprimia o movimento.
Morrem inesperadamente sete pessoas em Antares, devido à greve de coveiros, negam-se a efetuar o enterro, ainda das pessoas da alta sociedade, a fim de aumentar a pressão sobre os patrões. Os mortos, insepultos, adquirem "vida" como as personagens são cadáveres, podem criticar violentamente a sociedade.
Fala-se da sociedade que também é o retrato de tantas outras caracterizada pelo conservadorismo, apegada às aparências e as tradições. Descreve-a como patriarcal e machista, em que o poder é exercido de forma despótica e absoluta. A vontade do homem é a lei, a sua voz tem que ser ouvida. O Coronel Tibério é certamente o grande senhor patriarcal do livro. Sempre armado, o coronel tinha o hábito de resolver tudo a bala. Até mesmo no caso dos mortos, a sua sugestão era de fazer os mortos retornarem ao cemitério à força.
A mulher vive à sombra do macho, em tudo submissa, passiva, aceitando a ordem estabelecida.
Os pobres e humildes serão objeto de discriminação e desprezo. Aqui entram as prostituas, bêbados, os loucos, os “subversivos”, sempre mal vistos e rejeitados pela sociedade.
A imagem da religião é tradicional, moldada à imagem e semelhança da sociedade aristocrática, na igreja rezando as missas em latim, encomendando os seus defuntos à espera do Juízo Final, insensível aos problemas sociais e às vozes que clamam por justiça.